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Revista Amanhã
OS NORTES DA BÚSSOLA
Não basta ser fluente em um segundo idioma para fechar negócios em outras fronteiras do mundo. Para sustentar uma relação de amizade ou business com estrangeiros, é essencial que o profissional conheça os hábitos, costumes e os valores dos interlocutores de outras partes do mundo. Em "Os Nortes da Bússola", editado pela Artes e Ofícios, a consultora Andréa Sebben e o empresário e Fernando Dourado Filho – que assina a coluna “Ao redor do mundo” na versão impressa de AMANHÃ – dão dicas de como se comportar nos países mais procurados por viajantes brasileiros. Fechar um negócio na China, por exemplo, exige um rigoroso respeito e seriedade entre os negociantes. E é bem diferente de lidar com norte-americanos – que se interessam mais pelas vantagens do negócio do que pelas formalidades. Em uma linguagem bem humorada, o livro relata situações comuns na rotina de quem passa boa parte da vida longe de casa. Dá dicas de como encarar a solidão em um país desconhecido e a habitual frieza de um quarto de hotel. E mostra como adaptar – já que é difícil evitar – o "jeitinho" brasileiro em outras culturas. Os Nortes da Bússola é um verdadeiro guia de viagem para os executivos que vivem mais na sala de embarque do que na própria cozinha. Mas também serve como uma boa diversão para quem quer apenas saciar a curiosidade sobre as peculiaridades culturais de cada país. (Erik Farina)
Andréa Sebben e Fernando Dourado Filho
Livro: Os Nortes da Bússola
Autor: Andréa Sebben e Fernando Dourado Filho
Editora: Artes e Ofícios
Páginas: 208
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O NORTE DA BÚSSOLA CHINESA
PARA ENTENDER OS SIGNIFICADOS DO COMPORTAMENTO
DOS CHINESES É PRECISO COMPREENDER A HIERARQUIA DE
VALORES E AS MÚLTIPLAS CATEGORIAS CULTURAIS DESSE POVO
Atualmente, os principais destinos de
executivos expatriados são Estados
Unidos, Reino Unido, Bélgica, Alemanha,
Cingapura, Índia e China. No caso dos brasileiros,
uma das melhores alavancas para o
sucesso se encontra na China. O Brasil e a
China nunca viveram uma época tão favorável
para estreitar as relações políticas e comerciais
como nos dias de hoje. Portanto, é
fundamental compreender o comportamento
de nossos interlocutores chineses.
Antes, convém lembrar que a Psicologia
Intercultural lida com generalizações
que permitem abrir a forma de pensar e
levam à revisão de conceitos, enquanto os
estereótipos são sistemas fechados de crenças
que, em geral, fecham os canais de
comunicação. Portanto, compreender o
comportamento significa entender profundamente
as raízes e, portanto, a forma
de viver e negociar dos chineses. Treinamentos
Interculturais bem-sucedidos não
trabalham com regras, mas com conceitos
vivos e capazes de serem utilizados em
qualquer momento da convivência com
os chineses – dos negócios até uma reunião
de final de semana com os vizinhos.
Um ponto de partida é o que costumo
chamar de “Bússola”, que reúne 46 axiomas
comportamentais dos diferentes povos.
Em relação aos chineses, é fundamental
conhecer quatro desses axiomas. O primeiro
deles é o etnocentrismo. A China é
um país de fronteiras imensas e com uma
característica em comum com os brasileiros,
que também vivem num país continental:
o etnocentrismo. O etnocentrismo
é a tendência de um povo querer ditar as
regras e julgar-se superior aos demais. Essa
tendência explica a frase: “Chineses só negociam
com chineses”. O que isso quer dizer?
Que somente fazem negócios com
quem pensa, decide e resolve como eles. O
etnocentrismo faz com que o povo chinês
seja hermético às influências de outros povos.
Nós brasileiros temos o mesmo comportamento.
Com fronteiras distantes umas
das outras, estamos mergulhados num
mesmo caldeirão étnico e cultural que nos
faz acreditar que o resto do mundo é estranho,
e só nós somos normais. Que pessoas,
alimentos e hábitos ao redor do mundo
são esquisitos, e somente o nosso é correto.
Colocar dois povos etnocêntricos
num próspero encontro intercultural é
uma das tarefas mais árduas.
Outro ponto que norteia o povo chinês
são os valores do Confucionismo.
Freqüentemente confundido com uma religião,
ele nada mais é do que um código de
conduta que rege as relações interpessoais.
Isso aponta para um segundo norte de nossa
“Bússola”, chamado Grande Distância ao
Poder – ou seja, o alto valor que os chineses
dão à hierarquia, ao poder e à autoridade,
expresso na tradição da obediência. Essa
tradição se espraia de muitas formas: os
governados devem respeito ao governo;
os indivíduos mais jovens, aos mais velhos;
os mais incultos, aos mais sábios, e assim
por diante. O Confucionismo também realça
o valor do trabalho e da vida espartana,
na qual os prazeres são adiados em favor
da austeridade e da retidão de conduta –
que deve ser, sempre, serena e sóbria. Boa
parte das mazelas ocidentais, crêem os chineses,
é produto do desconhecimento dessa
hierarquia de valores. Para eles, os ocidentais
não procuram cultivar valores morais
que enobrecem o espírito e harmonizam
a convivência social.
Compreender o Guanxi é outra regra
de ouro. O Guanxi, ou conexões, é o
que chamamos de networking. Os chineses
só se envolvem com pessoas nas quais
sentem confiança. Usada amplamente na
vida social e profissional, é a rede de relacionamentos
que impressiona e confere
poder àquele que tem o maior número de
amigos e influências. Muitas vezes, tem-se
a impressão de que alguns encontros “não
terminam nunca” ou são “conversa fiada”.
Na verdade, os chineses estão usando sua
milenar estratégia de avaliar se vale a pena
tê-lo em seu Guanxi.
Outra forte característica desse povo
é o coletivismo. Trata-se de um povo pouco
individualista, que preza muito as relações
cultivadas nos círculos de Guanxi, a
preservação da auto-imagem e o respeito
ao outro. O que melhor ilustra o coletivismo
chinês é a prioridade que dão ao bem
do grupo. Juntos, coletivismo e Confucionismo
permitem uma boa compreensão
dessa cultura. Entretanto, os chineses desnorteiam
facilmente a “Bússola” dos mais
experientes executivos ao apresentarem,
nas negociações, um caráter oposto ao coletivismo:
o individualismo. Nos negócios,
os chineses são ágeis e sabem defender
como ninguém o próprio interesse. Também
são eficazes em estratégias e manobras
de dissimulação para confundir o parceiro,
garantindo-lhes a vitória.
A comunicação é outro elemento importante
indicado por nossa “Bússola”. Na
relação com estrangeiros, os chineses tendem
a ser polidos e passivos, o que pode ser
confundido como falta de interesse ou de
objetividade. Quem conhece o Confucionismo
sabe que esse “silêncio e passividade”
significam respeito, reverência e consideração
pelo outro. Portanto, interromper
a fala de um chinês ou questioná-lo antes
que termine sua explanação é uma ofensa.
Na mesma linha, pedir avaliações ou
feedbacks pode ser natural entre os ocidentais,
mas será uma forma de constranger os
chineses: eles podem não querer dizer a
verdade, ao mesmo tempo em que não se
sentirão confortáveis em mentir.
Muitos executivos investem tempo e
dinheiro para aprender etiquetas de conduta
e absorver conhecimentos para negociar
com os chineses. Mesmo assim, deixam
escapar oportunidades valiosas porque
não conseguem fazer uma leitura correta
dos significados do comportamento de
seus interlocutores. A China é misteriosa e
paradoxal, o que exige uma compreensão
profunda de suas múltiplas categorias culturais
e de comportamento. Portanto, a
competência profissional e o conhecimento
de um conjunto de códigos de etiquetas
não são suficientes para garantir bons negócios
com interlocutores de outras culturas,
sobretudo com os chineses.
“NOS NEGÓCIOS, OS CHINESES SÃO ÁGEIS E SABEM DEFENDER
COMO NINGUÉM O PRÓPRIO INTERESSE. TAMBÉM SÃO
EFICAZES EM ESTRATÉGIAS E MANOBRAS DE DISSIMULAÇÃO
PARA CONFUNDIR O PARCEIRO E CONSEGUIR A VITÓRIA”
Andrea Sebben - Psicóloga culturalista, mestre em Psicologia
e membro da International Association
for Cross-Cultural Psychology (IACCP)
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