| |

Revista Capricho
Matéria publicada na revista CAPRICHO em 04 de março de 2007, por Fernanda Faria.
Intercâmbio sem problemas
Como se prevenir dos 7 perrengues mais comuns na vida de um intercambista
1. Engordar - Acontece com a maior parte das intercambistas
Rolou com quem: Luiza Rodrigues, 17 anos, sempre foi magrinha e até trabalha como modelo. Daí foi passar 6 meses no Canadá e se deparou com uma infinidade de comidas que nunca tinha experimentado. Claro, tudo muito engordativo. "A gente comia o famoso café-da-manhã americano: bacon com ovos. Não tinha nada de verdura, arroz, feijão... Fora todo tipo de fast-food que você imaginar." Luiza ganhou 10 kg em 6 meses. "Imagina se eu tivesse ficado um ano."
O que fazer antes de ir: faça uma dieta mais leve nos meses antes de ir - assim, você chega com alguma folga para experimentar as novidades. Outra coisa que pode ajudar é conversar com sua host family para saber qual é a rotina de alimentação deles. Assim, você não é pega de surpresa por várias tentações.
O que fazer quando estiver lá: aproveite para ir para a escola a pé ou de bicicleta. Fazer exercícios queima gordura e ainda libera endorfinas, que te deixam mais feliz, evitando o principal motivo da engorda entre intercambistas: descontar a saudade na comida. Também é legal conversar com sua família sobre seus hábitos. Se eles são fãs de bacon e ovos no café, pergunte sobre a possibilidade de ter pão e leite enquanto você estiver lá. Se eles não curtirem a idéia, pergunte se você pode comprar algumas coisas, como frutas, e deixar separadas. Tente fazer pelo menos 3 refeições grandes por dia e não se esqueça de comer a cada 3 horas - assim você não vai chegar faminta e atacar a geladeira supercalórica na volta da escola.
2. Cair numa família que seja a maior roubada - Não é tão comum
Rolou com quem: a mineira Nayane Ferreira Silva tem 17 anos e está há 6 meses em Taiwan, onde as famílias são bem conservadoras. "Um dia, eles resolveram me levar a uma festa. Eu estava super sem graça de eles estarem lá comigo e fui tentar fazer amizade com umas meninas. Conheci uma inglesa e queríamos trocar telefone. Como não tinha celular, fui pedir o número para a minha mãe e ela começou a me puxar pelo braço dizendo que a menina não servia para ser minha amiga. Fiquei morrendo de vergonha!" Nay também conta que eles controlam até a roupa que ela usa, mas diz: "A gente está aqui para viver a cultura deles. Desistir por motivos pequenos é burrice".
O que fazer antes de ir: a primeira coisa é procurar uma boa agência de intercâmbio, que faça uma seleção rigorosa das famílias. Também é importante se comunicar bastante com sua família antes de ir. As agências costumam estimular esse contato. Nessas conversas, pergunte tudo o que quiser: quais os horários da casa, o que você pode fazer para ajudá-los com as tarefas domésticas, quanto tempo pode ficar no computador. Assim, você já chega sabendo como vai ser sua vida.
O que fazer quando estiver lá: lembre-se de que é você quem tem que se integrar à sua família. Algumas atividades - como ir à igreja, no caso de uma família religiosa - não são obrigatórias, mas podem ser uma boa oportunidade de fazer amigos. Se acontecer algo muito grave, procure o coordenador do seu intercâmbio: ele vai te ajudar a contornar a situação. Não adianta nada ficar ligando para os seus pais no Brasil desesperadamente.
3. Se meter em confusão por falta de conhecimento das leis - É raro, mas é importante ficar atento: dependendo do que você faça, pode até ser desligado do programa. Nos EUA, por exemplo, menores de 21 anos não podem beber. Quem é pego infringindo a regra pode ser deportado de volta ao Brasil.
Rolou com quem: Hayane Bragança, 18 anos, passou um ano na Nova Zelândia. Como ela morava longe da cidade, tinha que pegar o trem cada vez que queria passear. Um dia, ela e uma amiga resolveram andar pela ferrovia até chegar à cidadezinha mais próxima. Durante todo o caminho, os motoristas que passavam pela estrada buzinavam para as duas. "Até brinquei com a minha amiga dizendo que ela estava arrasando!", diz Hayane. Depois de um tempo, eis que aparece a polícia. "O policial disse que era proibido andar pela rodovia, que ia nos levar para a delegacia e teríamos que pagar uma multa de 250 dólares. Nós não tínhamos dinheiro para isso! No fim, o policial entendeu que a gente não conhecia as leis e nos levou para a estação de trem. Fiquei morrendo de medo."
O que fazer antes de ir: reúna o máximo de informações sobre o país. É uma boa idéia pedir para sua agência organizar um encontro entre você e um intercambista que acaba de voltar do lugar que é o seu destino.
O que fazer quando estiver lá: converse com os seus pais e com os amigos nativos e cuidado com as suas companhias lá. Preste atenção também em como as pessoas se comportam, principalmente nas relações afetivas. Em alguns países, o beijo no rosto (tão comum para nós, brasileiros) é considerado uma ofensa. Na dúvida, pergunte.
4. Sofrer preconceito - É raro
Rolou com quem: a amazonense Junia Berzin, 15 anos, passou 6 meses no Texas, em uma cidade chamada Keller. Logo que chegou, percebeu que havia preconceito com os imigrantes em geral, mas de maneira velada. Foi numa aula de matemática que isso ficou explícito. "Desde que eu disse que era do Brasil, a professora me olhou torto. Como eu não estava indo bem na matéria, ela sempre perguntava se eu não queria trocar de turma. Só que eu queria melhorar! Estudei bastante e fiquei com uma nota superalta. Mesmo assim, ela continuava insistindo nesse papo de mudar de turma. Até que ela mesmo foi falar com a coordenação da escola onde eu estudava exigindo a mudança. Ela disse que não dava aulas para estrangeiros." Ju acabou mudando de sala, mas garante que isso não a impediu de aproveitar o resto da viagem.
O que dá para fazer antes: quase nada, além de escolher um país que tenha crenças parecidas com as suas.
O que fazer quando você estiver lá: tenha sempre em mente que o problema não é você. Se a situação estiver dificultando sua vida, converse com sua família. Se isso não resolver, fale com o coordenador do intercâmbio. Um cuidado: não confunda pouca receptividade com preconceito. Se o problema estiver sendo fazer amigos, porque as pessoas são muito fechadas, matricule-se em cursos extra-curriculares ou em uma academia, por exemplo. Isso pode te ajudar a fazer amigos.
5. Ir parar numa cidade muito diferente do que você imaginava - É bem comum, já que em geral você escolhe só o país para onde vai e não a cidade.
Rolou com quem: a mineira Hayane, a mesma que se meteu em confusão por não conhecer as leis, morou em uma cidade bem diferente do que esperava. "Fui morar no interior da Nova Zelândia, numa fazenda. Não tinha nada para fazer, meus pais ficavam vendo TV a noite inteira. E eu não suporto TV!", diz ela. Mas Hayane acabou encontrando uma coisa boa na situação. "Como eu não fazia nada, comecei a desenvolver meu lado artístico: pintava quadros, fazia esculturas, escrevia. Mudei de cidade depois e foi ótimo, mas acredito que a primeira experiência foi muito boa no fim das contas."
O que fazer antes de ir: o mais comum é que o intercambista seja enviado para uma cidade pequena (e não para as capitais), mas, na hora de se inscrever no programa, é legal deixar claro que tipo de lugar você espera: as agências vão se esforçar para encontrar uma cidade que combine com o seu perfil.
O que fazer quando você estiver lá: seja pró-ativa. Descubra o que há de bom na cidade, faça amigos e aproveite a oportunidade de conhecer esse pedaço da cultura do seu novo país. Lembre: é você quem tem que se adaptar à cidade e não o contrário.
6. A hora de voltar - É mais comum do que se imagina. Tereza Fulfaro, da Central de Intercâmbio, conta que já viu casos de pessoas demorarem uns 4 anos para se readaptarem ao Brasil.
Rolou com quem: Rafaela Leonel tem 17 anos e está há 7 meses na Nova Zelândia. Como todas as pessoas que fazem intercâmbio, sofreu muito no começo. Morria de saudades e ficava horas na internet para tentar amenizar a solidão. Acontece que hoje o problema da Rafa é outro: a volta. "Construí minha vida aqui durante esse tempo e estou superchateada de ter que ir embora. É difícil deixar tudo para trás, mesmo sabendo que valeu a pena e que vou lembrar de cada momento. Não sei se vou ser forte o bastante para dar adeus." Ela conta que faz tempo que não manda e-mail para as amigas brasileiras e adiou a sua volta em mais de 2 meses. "Minha mãe só exigiu que eu voltasse porque é aniversário dela."
O que fazer antes de ir: vá preparada para mudar. Converse com seus pais para que eles entendam que você vai voltar diferente, mais independente e com outra visão de mundo.
O que fazer quando você voltar: esforce-se para voltar à sua rotina no Brasil, aplicando na sua vida o conhecimento adquirido na viagem. Os seus amigos não terão passado pela mesma experiência, mas você não deve esquecer que eles ainda são seus amigos. Compartilhe as suas experiências, faça algumas reuniões para mostrar as fotos e contar as histórias da viagem, por exemplo. Assim, você pode relembrar o intercâmbio matando a saudade da vida que você tinha deixado aqui.
7. Seu ano escolar não ser aceito no Brasil - É raro, desde que você respeite as exigências feitas pelo MEC: apresentar o histórico escolar do ano fora e o diploma traduzidos corretamente.
Rolou com quem: Yasmin Corbi tem 17 anos e fez um intercâmbio para o Alasca. A princípio, ela ia ficar 6 meses, mas acabou gostando tanto que estendeu por mais 6 meses a viagem. Só tinha um problema: sua escola não a aceitaria no meio do 3º ano. "Eles alegaram que não me aceitariam porque eu não passaria no vestibular. O jeito foi procurar outra escola e terminar o ensino médio", conta ela que agora está fazendo cursinho.
O que fazer antes de ir: tire todas as suas dúvidas com a agência e com a sua escola: que média você tem de tirar, que disciplinas você tem de cursar (em geral, as exigidas são inglês, matemática, educação física, geografia ou história e física ou química ou biologia).
O que fazer quando você estiver lá: leve as disciplinas a sério. É o que recomendam os especialistas. Quando estiver com seu boletim gringo em mãos, leve ao consulado brasileiro mais póximo e peça o selo consular no documento. O seu diploma internacional deve ser aceito nas escolas do Brasil. Isso é garantido por lei.
O maior problema: muita Internet
É claro que, se você está longe e morrendo de saudades e sabe que suas amigas estão online, vai ser difícil resistir à tentação de ficar no MSN. O problema é que, em vez de ajudar, isso pode prejudicar sua vida. Afinal, no lugar de estar convivendo com a nova cultura e novo idioma, você está convivendo com seus amigos. "Além disso, é uma grosseria ficar no computador isolado quando se está na casa de alguém", diz a psicóloga Andréa Sebben. Aproveite o contato com a família hospedeira para praticar o idioma e aprender mais sobre a cultura do país. "O ideal é falar com os amigos no Brasil via MSN só 2 vezes na semana", diz a psicóloga Caroline Fragomeni. Em algumas empresas, esse limite para usar internet e telefone faz parte do contrato. "Algumas famílias mais rígidas chegam a fazer reclamações formais sobre o intercambista e ele pode até ser desligado do curso caso exagere", diz Tereza Fulfaro, diretora educacional da Central do Intercâmbio. |
|