Revista Claudia

O intercâmbio cultural é um dos melhores investimentos que você pode fazer pela carreira do seu filho. Além de falar bem outra língua, ele amadurece e aprende a se virar sozinho! É o que Andréa Sebben ressalta para as leitoras da revista Cláudia, em março de 2001, por Aline Angeli

Intercâmbio cultural
Pelo mundo afora

Duas semanas após embarcar o filho Rodrigo, 15 anos, para a Nova Zelândia, a empresária paulista Denise Bertho não conseguia esconder a ansiedade. “Hoje é o primeiro dia de aula dele lá...”, lembra. “Estou louca para saber como foi. Será que ele vai se adaptar?” Pela empolgação do garoto, as previsões são bastante otimistas. “A família que me recebeu é ótima e já deu para fazer amigos”, contou Rodrigo a CLAUDIA por e-mail. “É claro que sinto saudade. Mas, quando isso ocorre, penso na importância que este período terá para meu futuro.”
Ninguém tem dúvida de que Rodrigo está certo. Aliás, é bem provável que você já não agüente mais ouvir falar sobre a necessidade de saber inglês nem todo o blablablá que acompanha os tais efeitos da globalização. Mas essas idéias vêm provocando uma mudança de comportamento na classe média inimaginável há algumas décadas. Se antes era um luxo ter uma experiência no exterior, hoje muitos pais não pensam duas vezes antes de sacrificar as economias para incrementar o currículo dos filhos. Nem mesmo a alta do dólar, que abalou o turismo nos últimos anos, conseguiu diminuir a procura pelos programas de educação intercultural. No ano passado, 80 000 estudantes brasileiros cruzaram a fronteira para conhecer o dia-a-dia de outro país e cursar a high school (equivalente ao colegial no Brasil), segundo dados da Belta, sigla inglesa para associação brasileira das agências de intercâmbio.
Bancar o imigrante temporário não sai barato. Um ano nos Estados Unidos custa, em média, de 4 500 a 9 000 dólares – sem passagem aérea. Nos demais países, como Nova Zelândia, Canadá e Austrália, em que não há subsídio do governo, a tabela fica um pouco mais salgada: algo entre 11 000 e 13 000 dólares (ver “Qual o melhor tipo de intercâmbio?”). Como tirar proveito desse investimento é ainda o grande ponto de interrogação dos pais. “Embora o inglês fluente e a bagagem cultural costumem ser os resultados mais esperados, o principal ganho desse período de imersão é mesmo o crescimento emocional”, afirma a psicóloga paulista Ana Lúcia Coutinho. A oportunidade de descobrir o potencial longe do olhar protetor da família e de tomar decisões por conta própria é um dos exercícios mais valiosos que a empreitada reserva para o adolescente. E o sucesso diante desses desafios depende do quão preparados ele e a família estão para enfrentá-los.

Antes de fazer as malas
Quando é o melhor momento para mandar o filho ao exterior? “As experiências que costumam dar mais certo são aquelas dos que viajam a partir dos 15 anos”, responde Alfredo Spinola, presidente da Belta. Além disso, é essencial, no mínimo, o conhecimento intermediário do idioma. Mas a idade não é uma camisa-de-força. Que o diga o mineiro Renato de Castro, 14 anos. Ele tinha 13 quando resolveu passar um ano na Nova Zelândia. “Todo mundo falava que eu era muito novo e que seria uma loucura”, conta. “Por sorte, meu pai me apoiou. Não vou dizer que foi fácil. No primeiro mês, antes de fazer amigos, chorei bastante ao telefone e sofri por não entender quase nada de inglês. Mas quis ir até o fim. Eu sabia que era capaz.”
Maturidade e disposição. Esses são os requisitos para o sucesso da temporada fora de casa, dizem os especialistas. E não é só à garotada que eles se referem. “Os pais também precisam estar seguros de que já têm condições de se desprender do filho”, ressalta a psicóloga Denise Miranda, de São Paulo. “Só assim estarão tranqüilos para dar apoio ao estudante.”

Check-in emocional
O.k. Mas no que se traduz exatamente esse conceito abstrato de maturidade tão discutido pelos psicólogos? Significa flexibilidade, espírito livre de preconceitos, curiosidade e serenidade para dimensionar problemas. “Um adolescente maduro é aquele que  consegue administrar essas variáveis”, explica a psicóloga Andréa Sebben, de Porto Alegre, especializada em educação intercultural. É comum na adolescência acreditar que, se algo não vai bem, tudo é um caos – e aí se esconde um dos pontos mais delicados do intercâmbio. A separação costuma provoca uma culpa inconsciente pelo abandono, que tortura tanto quem fica como quem vai. “Nenhum pai agüenta ouvir o filho deprimido chorando ao telefone. O adolescente, por sua vez, sente o desligamento da família como uma pequena traição”, diz Andréa.
Saber que não é o único no mundo a passar por esses momentos difíceis pode ser uma ajuda e tanto. Por isso, muitas agências hoje oferecem um cursinho pré-intercâmbio, em que pais, adolescentes, especialistas e jovens que já passaram pela experiência contam suas histórias, trocam dicas e tiram dúvidas. “A idéia é discutir previamente o máximo de situações”, explica Ana Coutinho. “Quem viaja tem medo de não saber o que se passa por aqui.
Deixar combinado, por exemplo, que ele será informado caso alguém morra ou fique doente traz segurança.” A proposta desse treinamento não é só mostrar as diferenças culturais, mas também o modo de pensar do estrangeiro – como o hábito de auxiliar nas tarefas da casa, de não desperdiçar e a forma discreta com que eles expressam os  sentimentos. Ao compreender o que se passa com ele e com o outro, o adolescente consegue driblar melhor essas situações e encarar a solidão de maneira positiva. Foi o que fez a paulista Simoni Blanco, 16 anos, durante sua estada na Austrália, no ano passado. “Meu ‘pai australiano’ implicava comigo pelas mínimas coisas, como o fato de eu não comer bacon no café da manhã. Minhas ‘irmãs’  viviam bisbilhotando o meu armário e pegando minhas roupas. Mas, para mim, isso era apenas um detalhe, comparado a todas as novidades que eu estava vivendo.”

Olha eu aqui outra vez
A maior flexibilidade para aceitar o que é diferente é um traço forte das novas gerações. Com tanto acesso à informação, até o conceito de choque cultural ficou ultrapassado. Países multiculturais, como a Austrália e a Nova Zelândia, acolhem com simpatia os estrangeiros, e muitos dos hábitos americanos são conhecidos dos adolescentes. “Hoje, mais do que nunca, deve-se educar cidadãos para o mundo globalizado que saibam valorizar o próprio país sem desmerecer ou exagerar na exaltação dos outros”, afirma Andréa.
Esse é um requisito fundamental para o adolescente poder enfrentar tanto o intercâmbio quanto o momento em que retorna para casa e precisa se readaptar à rotina. Readaptar? Isso mesmo. “A volta costuma provocar um impacto ainda mais doloroso”, observa Denise Miranda. Especialmente se ela ocorre no segundo semestre do terceiro ano do colegial, quando o que aguarda o adolescente é a tensão do vestibular. “Para muitos, conhecer o exterior é materializar o sonho de um lugar ideal, em que as coisas funcionam”, explica.
Constatar que  o país natal tem defeitos que antes passavam despercebidos pode ser muito decepcionante. “Além disso, nem sempre a família e os amigos acompanham a revolução emocional do adolescente”, lembra Andréa. “É como retroceder um pouco”, tenta definir o gaúcho Ricardo Pretto, 16 anos, uma semana após chegar da Austrália. “Lá as coisas são mais organizadas, a cidade é mais limpa. Voltar para terminar a escola depois de conviver com outros amigos, que inclusive já trabalhavam, não me empolga muito”, confessa. Para quem está preocupado com a sensação de estranho no ninho, os especialistas têm uma boa notícia: ela dificilmente dura mais do que três meses. Depois, tudo retoma o ritmo normal, garantem – com a diferença de que seu filho nunca mais será o mesmo. E, felizmente, nem você.

 
 Qual o melhor tipo de intercâmbio?

Os programas diferem quanto ao tipo de escola que oferecem (pública ou particular) e na acomodação (no colégio ou em casa de família voluntária ou paga). Os mais procurados são os subsidiados pelo governo americano, em que o aluno ganha uma bolsa e fica com uma família. Mas são também os que exigem mais jogo de cintura. Isso ocorre porque o estudante não pode escolher a cidade em que vai ficar e as famílias geralmente têm menor poder aquisitivo. Ou seja: nada de mordomia. Além dos Estados Unidos, o Canadá, a Nova Zelândia e a Austrália vêm atraindo a atenção de quem quer estudar inglês.
Embora o intercâmbio nesses países seja mais caro, o estrangeiro é mais bem acolhido, as famílias são de classe média e as escolas têm ótimo nível (além de o ano letivo coincidir com o do Brasil). Não adianta mandar o filho para um tratamento de choque se, em casa, ele nem arruma a cama, aconselham os especialistas. Uma opção é começar com um período curto, como fez o paulista Felipe Hoe, 17 anos. Nas férias, ele estudou nos Estados Unidos por três semanas. “Agora, só penso em voltar”, conta.


Viaje na rede

Alguns sites trazem dicas e informações úteis para quem planeja fazer um curso no exterior:
www.estudenoexterior.com
www.cursosnoexterior.com.br
www.intercambiocultural.com.br

 
     
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