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Um mundo sem fronteiras
Intercâmbio cultural no exterior é tema de seminário inédito em Brasília. Evento, que festeja Dia do Estudante, inclui palestras, lançamento de livros e feira de oportunidades
Viajar, conhecer novos lugares, aprender uma nova língua, experimentar um emprego temporário e até mesmo atuar em uma superprodução cinematográfica. As muitas alternativas de experiências proporcionadas pelo intercâmbio cultural vão estar em discussão nos próximos dias 10 e 11 de agosto, durante o I Seminário Bex de Intercâmbio Cultural, que tem como tema central “Oportunidades em um mundo sem fronteiras”.
O evento – que festeja o Dia do Estudante, comemorado no dia 11 – acontecerá no auditório do Brasília Shopping (W3 Norte), com entrada gratuita, limitada à capacidade do auditório, que é de 100 pessoas.
A programação consta de quatro painéis: “O valor da experiência internacional no mercado de trabalho”, “Trabalho temporário no exterior: oportunidades e desafios” e “Mosaico cultural: os destinos mais procurados do mundo”.
Eles serão compostos por palestras de especialistas em intercâmbio, de profissionais e estudantes que viveram experiências fora do País e de representantes de embaixadas. Um dos convidados é o estudante de Medicina Teo Helou, da UFRJ, que, durante intercâmbio cultural nos Estados Unidos, teve oportunidade de atuar como figurante no filme Guerra dos mundos”, dirigido por Steven Spielberg e estrelado por Tom Cruise.
Já a estilista brasiliense Juliana Lima, única brasileira a fazer parte da equipe de Giorgio Armani, em Milão, Itália, contará como teve seu primeiro contato com o mundo da alta costura durante intercâmbio nos Estados Unidos, aos 16 anos.
Além disso, haverá a participação da psicóloga gaúcha Andréa Sebben, pós-graduada em Psicologia Transcultural, consultora de intercâmbio e de executivos “expatriados”. Na oportunidade, Andréa fará o lançamento de seu livro Intercâmbio cultural: para entender e se apaixonar, no dia 10, às 12h, no espaço de eventos do shopping, onde estará acontecendo, nos dois dias, uma Feira de Intercâmbio, das 10h às 22h.
“Diferentemente de outros eventos do gênero, o objetivo do seminário é difundir a informação”, esclarece Natália Payne, diretora da Bex em Brasília, organizadora do evento. Natália ressalta que o intercâmbio cultural, hoje em dia, é dirigido a pessoas das mais diferentes faixas etárias.
“Dos 12 aos 80, as agências oferecem uma grande variedade de alternativas, que podem inclusive ser customizadas de acordo com a necessidade do profissional, do estudante ou simplesmente do cidadão que quer viajar e aprender ao mesmo tempo”, diz.
O seminário mostrará como as viagens de intercâmbio constituem oportunidade para profissionais em busca de atualização, e como têm sido valorizadas no mercado.
Além das pós-graduações de longa duração, hoje existe uma variedade de cursos curtos voltados para públicos específicos. Como, por exemplo, um curso de inglês com ênfase em termos jurídicos, para advogados, ou uma visita guiada, de dez dias, pelo mundo do design em Londres ou Milão, para arquitetos e designers.
O que está programado
I Seminário Bex de Intercâmbio Cultural Dias 10 e 11 de agosto, no auditório e na Praça de Eventos do Brasília Shopping (W3 Norte), das 10h às 22h. Participação gratuita, aberta a todos os interessados. Informações: 3327-0835/ 3511
Dia 10 10h - Palestra de Abertura – Introdução: Diversidade de programas culturais no exterior. Painel 1: Descobrindo o mundo: programas no exterior para adolescentes e jovens Local: Auditório do shopping 12h - Lançamento de livro Intercâmbio cultural: para entender e se apaixonar, da psicóloga Andréa Sebbens Local: Praça de Eventos – Feira de Intercâmbio 19h30 - Painel 2: O valor da experiência internacional no mercado de trabalho Local: Auditório do Shopping
Dia 11 10h30 - Painel 3: Trabalho temporário no exterior: oportunidades e desafios Local: Auditório do shopping 12h - Painel 4: Mosaico cultural: os destinos mais procurados do mundo Canadá , EUA, Nova Zelândia, Austrália e Inglaterra Nos dois dias, das 10h às 22h, na Praça de Eventos do shopping (de frente para a W3), haverá a Feira de Oportunidades de Intercâmbio.
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Psicologia Intercultural
Ramo recente nas ciências da mente, a Psicologia Intercultural leva em conta as diferenças culturais dos povos e ajuda os expatriados a se adaptarem emocionalmente em outros países. Andréa Sebben conta como prepara os viajantes para o convívio com outras culturas
LUCIANA AMARAL
lcavalcanti@jornaldacomunidade.com.br
“Quem disse que a melhor fase da vida é a infância, é porque nunca fez intercâmbio”. A frase é da psicóloga Andréa Sebben, especializada num ramo pouco conhecido entre os estudiosos do comportamento humano, chamado Psicologia Intercultural.
No Brasil, sequer existem cursos de especialização sobre o assunto. Andrea resolveu tomar esse rumo após uma experiência de intercâmbio mal- sucedida na Itália, na década de 90.
Quando viu realmente o que significava ser uma estrangeira, alguns questionamentos relevantes povoaram sua mente: “De que maneira algumas teorias psicológicas generalistas se outorgavam a autoridade de se fazer valer em outras culturas? Será mesmo que poderiam ser validadas em todo o mundo? Por que não se estudava, então, a influência cultural no comportamento humano?”.
Após quatro anos de estudo e intercâmbios na Europa, ela veio ao Brasil em 1996 para fundar a empresa Andréa Sebben – Cross-Cultural Training & Psychology, única no país a lidar com a preparação intercultural de intercambistas, executivos e jogadores de futebol, antes que eles se aventurem pelo mundo.
Atualmente, ela vem a Brasília a cada seis meses, para ministrar treinamentos interculturais pela agência BEX – Brazilian Exchange, voltada a intercâmbios culturais, viagens e turismo.
Autora dos livros Intercâmbio Cultural: um guia de educação intercultural para ser cidadão do mundo e Intercâmbio Cultural: para entender e se apaixonar, ambos da Editora Artes & Ofícios, Andréa Sebben recebeu o Comunidade VIP para a entrevista a seguir.
Como funciona sua empresa, a Andréa Sebben – Cross-Cultural Training & Psychology?
Somos uma equipe de três psicólogas e nossa atuação é internacional, mas a sede fica em Porto Alegre. Temos também uma nutricionista especializada em dieta aculturativa, ou aculturação alimentar.
O que é isso?
Refere-se às adaptações que os povos sofrem ao migrarem. Então, por exemplo, temos uma colônia grande que veio do Haiti em Porto Alegre. Os haitianos não costumam comer carne cozida, só que a comida que vendemos não é apropriada para ser ingerida crua. Isso começou a dar uma série de problemas intestinais e gástricos. A nutricionista responsável pela aculturação alimentar se ocupa de fazer essa transição. Estatísticas apontam que 65% das mulheres e 44% dos homens tendem a engordar no primeiro ano de imigração.
Além dos alimentos, o que o viajante sente mais falta, quando está em outro país?
Na área da Psicologia Intercultural, estudamos o comportamento dos povos, assim como fatores de risco e sucesso na adaptação. Um desses fatores é o etnocentrismo. É uma característica forte do povo brasileiro. O que quer dizer? Nós andamos ao redor do globo observando e julgando de acordo com o nosso referencial, e freqüentemente julgamos outros povos de forma diminuída, como se os outros fossem esquisitos e estranhos.
Mas será mesmo que todo mundo é esquisito e somente o brasileiro é normal? Será que todo mundo é diferente e nós somos a regra?
Essa nossa característica, tão exacerbada, entra em conflito com outro país que é também extremamente etnocentrista, como os Estados Unidos. Canadá é bem menos, Austrália menos ainda e Nova Zelândia, ainda menos. Por isso, quem faz intercâmbio cultural opta muito por Austrália e Nova Zelândia, pois eles são realmente abertos a questões multiculturais, e nós não somos.
É curioso. A percepção geral é justamente a contrária, de que brasileiro se dá bem com todo mundo...
O brasileiro é hospitaleiro, mas quando ele vai para esses países e tenta se adequar aos costumes locais, mostra-se muito resistente.
A Psicologia Intercultural é um ramo novo nas ciências da mente?
Sim, é bastante novo, não tem mais que 30 anos. A Psicologia Intercultural nasceu basicamente de uma vertente européia e norte-americana, voltada para os refugiados de guerra.
Deveria haver uma matéria específica sobre o assunto no curso de graduação em Psicologia?
Acredito que sim, por dois motivos: primeiro, que o mundo está se reconfigurando. As relações interpessoais não são mais monoculturais. Você liga a internet, vai a um supermercado ou a um restaurante e as influências culturais estão entrando pelos poros. Segundo motivo: há um mercado imenso à espera de profissionais da área, porque nós realmente não os temos aqui.
As teorias psicológicas são muito generalistas?
Uma das críticas que a Psicologia Intercultural começou a fazer à Psicologia convencional, era de que os teóricos vinham todos de um mesmo grupo cultural. A Psicologia Intercultural relativiza a ciência. Nem tudo o que é certo e errado para um grupo será para outro. Portanto, as teorias são sim, generalistas. A Psicologia Intercultural, por outro lado, preenche uma lacuna e questiona toda uma construção científica convencional.
Existe uma ilusão entre os brasileiros de que lá fora é melhor do que aqui?
Há basicamente quatro tipos de comportamentos identificados no encontro intercultural. O primeiro deles é o etnocentrismo. O segundo, é o contrário: o romanticismo, que refere-se à valorização excessiva de outras culturas, em detrimento de sua própria origem cultural. O terceiro é o conservadorismo.
Alguns brasileiros vão ao exterior e formam guetos, falam português e levam o Brasil junto com eles, onde quer que estejam. Isso ocorre com grande freqüência. Eu tenho um grupo de expatriados que mora no Brasil há quatro ou cinco anos e eles não falam português. Estão adaptados, mas existe uma diferença entre adaptação saudável e neurótica. Por fim, há o comportamento intercultural, em que o sujeito valoriza a própria cultura e a do outro. Assim, consegue tornar-se cidadão do mundo. Esse desenvolvimento começa no Brasil, através de um treinamento intercultural.
Quanto tempo dura esse treinamento?
O treinamento dura umas sete ou oito horas. São focados os comportamentos do brasileiro, do hospedeiro e da família que fica. É o que eu chamo de tríade migratória. Trabalho com os seguintes públicos: pessoal de intercâmbio cultural, executivos expatriados e jogadores de futebol. Então, qualquer um deles que queira ir para outro país, seria produtivo que, antes disso, fizesse um treinamento intercultural, para diminuir expressivamente as dificuldades oriundas do processo de adaptação.
Como cientista, lido com a raiz do comportamento. Brasil, América Latina e países árabes lidam com o ambiente de uma forma que denominamos “coação”. Ou seja, tudo o que ocorre com a gente é considerado fruto do destino ou azar.
Somos um pouco fatalistas, porque lidamos com o transcedental e temos dificuldades em assumir responsabilidades. Isso explica, por exemplo, porque Zeca Pagodinho canta: “deixa a vida me levar, vida leva eu”. Frank Sinatra, por sua vez, cantava: I did my way. Estados Unidos, Canadá e Nova Zelândia vivem o ambiente de forma “controle”. Então, eles têm facilidade em assumir responsabilidades.
O comportamento predominante do americano e do canadense, que assumem suas responsabilidades, é um aspecto vantajoso, não é?
Eu não coloco nesses termos de melhor ou de pior. Aí entra o relativismo cultural. O bacana da intercultura é você conseguir assimilar o bom dos dois povos. É isso que queremos. Se você for pensar, somos um povo muito otimista e os estrangeiros gostam muito disso na gente. Mas se fôssemos um pouquinho mais “controle”, talvez nos desenvolvêssemos um pouco melhor.
Todos deveriam fazer intercâmbio?
Duas coisas na vida nos fazem nascer de novo: em primeiro lugar, o amor; em seguida, a viagem. Ao viajar, você descobre um lugar desconhecido e novos aspectos de si mesmo. A neuropsicologia, ou neurociência, diz que o que mais produz adrenalina e endorfina no cérebro é a novidade.
Por isso, quando nos apaixonamos, os hormônios vão a mil. Para mim, intercâmbio cultural é comidinha para o cérebro. E não tem idade para isso. Há intercâmbios para qualquer faixa etária e todos deveriam fazer um.
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