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A adaptação do executivo expatriado no exterior
Andréa Sebben
A globalização da economia está colocando as empresas numa dimensão internacional que produz desafios no plano operacional e que nos obriga a mudanças importantes na Gestão de Recursos Humanos. E um desses desafios constitui a necessidade de trasladar funcionários a nível internacional – o que se conhece como “expatriação”.
Nesse processo de expansão sem volta, novos conceitos se apresentam e afetam não apenas nossa concepção de empresa, mas também a direção que as pessoas tomam no desenvolvimento de suas carreiras. A expatriação é um processo que requer uma complicada gestão porque deve ter em conta os fatores que configuram diferentes realidades: econômicas, legais, políticas (migratórias e laborais), psicológicas, familiares e sócio-culturais das pessoas envolvidas e dos respectivos países de acolhida.
De acordo com a Mercer Recursos Humanos através de uma pesquisa realizada em 2006 com 50.000 funcionários algumas dificuldades se apresentam:
• problemas de adaptação no país de envio tanto do funcionário como de seus familiares que o acompanham;
• a falta de planejamento para a repatriação;
• a falta de valorização quando volta ao seu país de origem;
• o stress aculturativo que afeta todos os envolvidos
No relatório mundial do ERC (2006) aparece como causa majoritária dos retornos precoces problemas familiares como má adaptação das esposas, filhos, problemas conjugais e solidão. E naturalmente que tais problemas irão influenciar o estado emocional e o rendimento laboral deste expatriado. O paradoxo dessa cena é que todos sabem do papel fundamental que têm a família no fracasso ou sucesso da expatriação, do mesmo modo as questões afetivas envolvidas aí. Do mesmo modo sabem também o conflito que é o retorno ao país depois de determinado período fora. No entanto em nosso cenário brasileiro as empresas ainda não dão a estes aspectos a importância devida, uma vez que negligenciam (ou desconhecem) um bom Treinamento Intercultural e todo o aporte que dele pode advir: sensibilizar as pessoas para a disponibilidade e abertura, buscar o perfil correto a ser selecionado, fazer o acompanhamento e aconselhamento na estadia, apoio aos familiares, estudo do comportamento dos povos hospedeiros e de sua própria cultura, o reconhecimento das diversas categorias culturais de comportamento; a capacidade de aquisição de um idioma, capacidades sociais, ajustamento e perfil das crianças, o retorno planejado, as expectativas da volta com os dados da realidade que se encontra, entre tantos.
Como psicóloga culturalista nosso mote de trabalho e a boa adaptação do executivo e de seus familiares no exterior. Uma das ferramentas inéditas até então e pouco conhecida em nosso país é o uso da Psicologia Intercultural para a compreensão desses fenômenos. Na verdade, duas vertentes científicas vêm se ocupando dessas migrações organizacionais nos últimos anos: a Psicologia e a Educação interculturais. Na reunião de ambas, se encontra o que chamo de Treinamento Intercultural. O Treinamento Intercultural não é uma ciência em si, é uma ferramenta prática, mas não por isso destituído de ciência.
Para acompanhar um processo de adaptação bem-sucedido é importante conhecer primeiro a história pregressa desse executivo. Algumas perguntas são pertinentes no pré-embarque para contextualizar essa migração: o quão motivado ele esta para partir, se vai só ou acompanhado, se já teve experiências anteriores, como anda sua habilidade lingüística no idioma do hospedeiro, entre outras. As respostas a essas questões nos ajudam a delinear o progresso (rápido ou mais lento) dessa adaptação.
Durante o Treinamento propriamente dito pode-se observar questões de cultura e personalidade. Quando se trata de encontro intercultural não basta sabermos apenas aspectos da cultura hospedeira, mas da nossa própria também. Como brasileiro o que me facilita ou me prejudica no encontro intercultural? Provavelmente a facilidade de comunicação ira facilitar, mas nosso exarcebado etnocentrismo os afastara.
Povos etnocêntricos são aqueles que acreditam ser a sua cultura superior as demais, acredita ser aquela que esta correta, a que dita as regras. Tanto assim que as frases clássicas de brasileiros no exterior são: “Como eles são esquisitos! Que gente estranha!...” Será que todo o mundo e estranho e apenas nos somos normais? Será que todo o resto e diferente e nos somos a regra a seguir?
Mutatis mutandis. Podemos estar na contramão da cidadania mundial enquanto seguirmos nessa linha de pensamento. A superação de nosso próprio etnocentrismo e um dos principais desafios de nossos executivos brasileiro, mas não apenas eles, mas as esposas e seus filhos também.
Outro ingrediente interessante e a própria personalidade do individuo. Podemos ver negociadores brilhantes e capazes de trazer alguns milhões para a empresa desde que dentro de seu referencial cultural. Ao serem expatriados saem do palco monocultural ao qual estão acostumados e se perdem. Da mesma forma lideres brilhantes que em contato com equipes multiculturais perdem, repentinamente, todo o seu savoir-faire. O que acontece?
Trata-se de outro tipo de habilidade: para o relacionamento intercultural. E como se agregássemos um novo ingrediente a maravilhosa receita já conhecida e com isso mudássemos completamente o sabor final. Habilidade intercultural tem a ver com personalidade, certamente, mas vai alem disso. E necessário uma disposição sincera para a mudança – mudança de casa, de idioma, de pais, de alimentação e principalmente, mudança de si mesmo.
A grande questão que cada expatriado deveria fazer ao receber seu assignment e: eu realmente quero mudar? E você? Pense sobre isso – essa e a primeira e valiosa dica que posso deixar para quem vai ser expatriado.
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