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SemDestino – Por que você decidiu se especializar em Intercâmbio?
Andréa – Porque eu era o objeto de meus próprios estudos e, acredite-me, não há nada mais estimulante que isso.

SemDestino – Como funciona o seu trabalho de treinamento Intercultural?
Andréa – Os treinamento Interculturais observam a seguinte metodologia: conhecer-se enquanto brasileiro, conhecer o outro como estrangeiro e compreender a interação desses pares. Isso nos leva a alguns benefícios: um baixo número de retornos precoces em programas internacionais; melhora na performance do participante; alta produtividade e aproveitamento na permanência; maior ajustamento e adaptabilidade; maior satisfação dos hospedeiros e baixo incidentes que possam prejudicar a organização ou os país hospedeiro.

SemDestino – Qual a importância para um estudante universitário brasileiro ter uma experiência acadêmica ou profissional no exterior?
Andréa – Toda. Acho que o intercâmbio desperta a inteligência das ´pessoas. Inteligência porque não basta saber um idioma, mas saber ser flexível, criativo, versátil, corajoso, inovador, adaptável mesmo. E para mim, isso é inteligência, além claro, de uma dose generosa de erudição.

SemDestino – Quais as principais dificuldades e desafios que eles irão encontrar?
Andréa – O encontro intercultural de brasileiros e países de primeiro mundo são na verdade um conflito de valores e crenças culturais. Posto que cultura é comportamento todo nosso modo de amar, viver, perdoar, decidir, governar, tocar, vestir, estão impregnados do que chamamos “jeitos de ser”. São categorias culturais que estudamos detalhadamente na Psicologia Intercultural. Então vejamos: nós brasileiro, assim como gregos, malasianos, filipinos, portugueses fazemos parte de um grupo cultural chamado coletivistas. Outros países são chamados de individualistas (como os americanos, australianos, canadenses, franceses). O que nos afasta destes povos é justamente o conflito entre individualismo e coletivismo.

Nós, coletivistas, temos uma pequena distância corporal ao conversarmos, nos tocamos, apreciamos a exposição corporal,m andamos em grandes grupos, perguntamos de nossas vidas, trocamos favores, somos comunicativos, afetivos, temos um senso de privacidade bastante pequeno. Ele, individualistas, não apreciam nem o contato nem a exposição corporal, andam em grupos pequenos, o senso de privacidade deles é enorme, não há troca de favores e jantares íntimos na casa de amigos. Isso faz com que os brasileiros sintam-se rejeitados  emitam julgamentos  como: “Eles são frios, arrogantes, egoístas, moralistas, reprimidos sexualmente, só pensam neles, etc ...” Ou seja: não há compreensão do relativismo cultural, de que talvez existam outros modelos de relacionamento e de amizade que sejam válidos. Compreender que podem fazer amigos sim, mas amigos “individualistas” e não “coletivistas”.

Lembro de um grupo de engenheiros brasileiros com que trabalhei e que estiveram em Londres por 2 anos. Pelas tantas, um deles desesperados por não ter conseguido um amigo sequer na empresa, resolveu convidar alguns colegas para uma janta em casa. Este brasileiro sentia-se profundamente desamparado com aqueles pensamentos “ninguém gosta de mim, por que não me convidam, etc, etc,” Durante o jantar, um dos britânico, emocionado, declarou: “Puxa! Em 2º anos de empresa é a primeira vez que um colega me convida para jantar em sua casa...  Que boa iniciativa, obrigada!” Ou seja: não havia nada de errado com o brasileiro e ele pôde compreender ali que é a forma deles serem, inclusive entre eles também, que determina a forma de comportarem-se como grupo.

SemDestino – Sobre a adaptação, quais os países onde os brasileiros tem uma maior facilidade e como você explica isso?
Andréa – Austrália e Nova Zelândia estão entre os melhores de língua inglesa. Um nível menor de etnocentrismo e um grau menor de individualismo. Isso não nos afronta tão diretamente quanto americanos – altamente etnocentristas e altamente individualistas.

SemDestino – Muitos estudantes ao retornar ao Brasil têm dificuldade de se adaptar a nova rotina, pois a vida que eles estavam acostumados a levar no exterior, era muito diferente daqui. Por que isso acontece e o que você sugere para amenizar o impacto?
Andréa – Sabemos que há 2 migrações: a de ia e a de retorno e para alguns pode parecer um pouco pior por alguns motivos: (a) perde-se a espontaneidade com o Brasil, aquilo que antes era normal agora é visto com olhos críticos; (b) perde-se a intimidade com quem era íntimo pois este não consegue mensurar a grandeza da experiência de quem voltou; (c) finalmente, tudo isso gera solidão pelo desconhecimento absoluto de quem ficou. Minha dica é que usemos as mesmas ferramentas que dispomos no exterior: ter pela nossa gente mais tolerância, mais interesse, mais vontade de aprender. Afinal, ser cidadão do mundo é estar em paz com todas as culturas, inclusive com a própria.

Semdestino – É possível se preparar para fazer um intercâmbio, e de que forma esta preparação ajuda o estudante?
Andréa – Nos treinamentos interculturais uso técnicas chamadas “jogos de simulação intercultural e jogos de análise intercultural”, justamente estas aprendidas nestes jogos europeus. Não há nada mais ineficiente do que dizer para uma pessoa que ela precisa se adaptar (adaptar-se a quê?), ser mais madura (o que é maturidade?) ou deixar de ser preconceituosa. Essas mudanças de comportamento não respondem à argumentação racional até porque são pura abstração. Há que fazer com que as pessoas sintam (na prática) o que estamos falando e logo, oferecer uma teoria científica séria e coerente que dê luz a esses fenômenos. Creio que a junção da técnica e do afeto são os remédios eficazes para a sensibilização das pessoas.

SemDestino – Vice poderia dar algumas dicas para quem vais fazer intercâmbio (recomendações gerais)?
Andréa Quando se fala em viver no exterior de forma inteligente fala-se em educação intercultural. Não há nada que supere essa grande sala de aula que é o nosso planeta e a nossa gente, Ser cidadão do mundo é um empenho constante de superação. Costumo dizer que a viagem é a arte do encontro – o encontro consigo mesmo. Portanto: ser corajoso, ter metas, ter focos, ter sonhos (e que sejam grandes e envolventes). Mas abrir-se também, superar seus preconceitos, seu racismo, sua ignorância. Dar lugar à confiança no ser humano (tão desprestigiada anda a confiança no próximo, não?), permitir-se, ser mais tolerante, mais generoso, mais benevolente. O cidadão do muno, ao meu ver, deveria esquecer a relação hóspede/hospedeiro e colocar-se sempre na posição de hospedeiro. E como se eu, na minha primeira vez em Salvador, viesse preocupada como fato do povo ser gentil comigo. Por que pensar no que vou receber? Ora, minha preocupação é em eu ser gentil com vocês. Que eu possa dar meu melhor, marcar a vida das pessoas, agregar valor ao nosso encontro. Pensar no que eu posso fazer e não responsabilizar os outros por isso. Creio que isso dá mais chances do encontro dar certo.
SemDestino – O que você espera desse espaço no portal da SemDestino?
Andréa – Espero tornar público o seguinte: já temos em nosso país uma área nova chamada Psicologia Intercultural e ela está aí para ser desenvolvida e bem explorada. Há treinamento intercultural, livros e ciência ao alcance de todos. Não precisamos mais ir no amazon.com ou buscar gente de fora. Como brasileiros creio que só poderemos protagonizar o cenários internacional quando aprendermos a não rejeitar as inovações, estarmos aberto às mudanças e valorizarmos o que é nosso.

SemDestino – Você já tem um livro publicado, inclusive de muito sucesso sobre intercâmbio, como surgiu a idéia e para quem você recomendaria essa leitura?
Andréa – Este livro eram manuais de treinamento divididos em 4 etapas chamadas: Tornando-se um cidadão do mundo, Preparando para embarcar os filho, Host Family Guide e Encontrando o caminho de volta. O primeiro era para o intercambista, o segundo para os pais deles, o terceiro era em inglês e entregue as famílias hospedeiras e o quarto a pessoa recebia quando voltava, no sentido da readaptação ao Brasil. Daí a tornar-se um livro foi questão de necessidade do mercado mesmo.

 

 
     
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